Preciso Falar – Comportamento e ética industrial nas escolas privadas de grande porte.

Visualize um lugar, com diversas pessoas se dedicando à uma mesma atividade que gerará um produto específico. Neste lugar, qualquer tentativa de desvirtuar o trabalho, ou seja, ócio, será punida com expulsão. Os indivíduos deste espaço estão privados de conversar entre si, cantar, assobiar, pentear-se, brincar, ler, comer. Eles precisam chegar em um horário especifico, e se, por acaso, houver atrasos, serão punidos. O momento de comer são de rígidos trinta à quarenta minutos, tendo que retornar aos seus postos assim que o sinal tocar. Se houver atrasos, novamente, serão punidos. Sua ocupação é exercida até o fim do expediente, geralmente de cinco à seis horas. Qualquer tentativa de subverter esse sistema é encarada como dissidência e punida com privações.

O leitor pode ter imaginado uma fábrica europeia do século XIV, mas o cenário que construímos é muito mais real e próximo do que as indústrias. Estou falando das salas de aula, em especial das com ar condicionado que as grandes escolas privadas mantém, as do Ensino Médio privado.

Quando descrevemos da maneira do primeiro parágrafo, acredito que o sistema educacional privado brasileiro parece mais assustador do que é na prática. O objetivo é estabelecer uma comparação entre o sistema das escolas brasileiras privadas com o adotado nas fábricas da industrialização europeia e trazer uma verdade que, muitas vezes, é difícil de compreender: “a escola é um ambiente de socialização para o trabalho fabril”. O que isso significa? Significa que os seus filhos estudam para trabalhar e, o pior, já estão trabalhando.

O trabalho fabril é exercido no objetivo de conseguir um produto. Esse produto não é desejo do trabalhador, é exigência da empresa, é ela quem quer produzi-lo. E que produto o estudante tem produzido, e que não é do seu interesse? As notas que sua escola colocará num outdoor.

O marketing das escolas privadas brasileiras modernas está, em sua maioria, resumido a expor cartazes de alunos sorridentes acompanhados de um “1° lugar” em algum concurso público. As escolas privadas expõe suas taxas de produtividade superiores na região, divulgando quantos alunos ingressaram em universidades, e quais as suas respectivas notas. E você pensa que isso é para valorizar os alunos que, com muito esforço, conquistaram seus devidos resultados? Não, o objetivo das empresas da educação é apenas um, conseguir mais contratantes para pagar por seu serviço. E elas o conseguem oprimindo educadores e educandos, forçando um sistema cujo o objetivo não é colocar seu filho na universidade, mas conseguir notas elevadas para o status da empresa. Você literalmente está pagando para seu filho ser escravo.

Há quem vá culpar o professor e os coordenadores pelos abusos cometidos no ambiente escolar privado. Mas o verdadeiro agente da opressão não é os educadores que, deixando claro que falo do sistema privado de educação, já possuem uma visão transformada de pedagogia, e buscam construir conhecimentos novos e promover debates em sala de aula. Os educadores, nesta circunstância, como o aluno, são oprimidos. Por quem? Pela administração escolar.

É preciso esclarecer, o sistema que aqui está sendo destrinchado é o usual das escolas privadas de grande porte, especificamente da cidade de Fortaleza, que possuem indicadores assombrosos de ingressão em vestibulares, com altas colocações por sinal.

O que é jogado para você no outdoor é apenas o resultado, o 1° lugar em Medicina, mas o que as instituições escondem é todo um sistema de restrição e opressão para conseguir o produto final, que gera a ótima colocação.

O aluno, como todo trabalhador, prefere o ócio. Para ele, é mais atrativo se divertir que estudar. Mas essas escolas poderosas precisam que seus alunos sejam nota mil, passem as férias, garantia constitucional, “se reciclando”, ou seja, estudando. E esse investimento maciço em criar “estudantes estudiosos” não está relacionado ao acumulo de conhecimento cientifico e social, ou à construção de um profissional qualificado para o mercado de trabalho. Essa realidade se torna visível ao observarmos o que esses estudantes realmente chamam de “estudo”. Noventa por cento do “estudo” dos alunos do Ensino Médio privado, especialmente de segundos e terceiros anos, é resolver questões de vestibulares. E podemos ter plena convicção de que isso não traz nenhum conhecimento.

Então você diz, “Isso é para que ele ingresse na universidade”. De fato, o aluno se esforça para ingressar na universidade. Os professores e coordenadores buscam o mesmo. Mas a administração da escola diz o seguinte “Esses alunos precisam tirar notas ótimas nos vestibulares, para que nós possamos ter garantido nossa sobrevivência no mercado”. A nota, resultado do esforço do seu filho, vai ser usada para que a empresa educacional lucre mais ainda.

E como podemos averiguar que as instituições privadas de ensino estão realmente forçando os alunos a ter boas notas, a fim de divulgar seus resultados como se o mérito fosse da instituição? Olhe ao seu redor, veja as propagandas, os outdoors. Não se fala do sistema escolar, de como a escola trabalha, dos seus projetos, seu diferencial, mas sim das notas. Não se fala do meio, se fala do fim, porque para essas escolas, e para você, pai e mãe, o que importa é o fim, não o meio. Mas para o seu filho, o meio vale anos de dedicação, de privações, vale a construção de um futuro cidadão, cuja formação é alienada à função de operário, ignorado todo seu potencial sociocultural e científico, servindo ao mesmo ritmo que foi quebrantado na escola.

A problemática fica evidente, e até grotesca, na formação de turmas avançadas, com objetivo de alcançar determinados vestibulares, ou que assinam compromissos de participar de olimpíadas. Estudantes dessas mesmas turmas avançadas não ganham valor nenhum a mais no mercado, porém, através do falso discurso de que serão melhor instruídos para os vestibulares, são usados como ferramenta para os reais objetivos da empresa, alcançar resultados que atrairão novos contratantes.

Reportagens de 2015 evidenciam que as três escolas fortalezenses colocadas como entre as vinte escolas com melhores resultados no ENEM 2015 possuem permanência de apenas 20% dos alunos. Ou seja, 80% dos alunos foram matriculados no ano do vestibular. Outras reportagens denunciam instituições escolares que usam dois registros, sendo um para os alunos de turmas avançadas, e outro, para os demais alunos, fraudando assim o ranking do ENEM. A situação ficou tão extrema que, em decisão honrosa, em 2017, o Ministério da Educação optou por, finalmente, descartar o ranking do ENEM, usado apenas para a propaganda das grandes escolas privadas.

Infelizmente há o conceito do grande culpado ser o professor, ele é o opressor. Mas essa visão está equivocada. O opressor é o sistema, sistema esse construído pelos administradores das empresas da educação, cujo objetivo é produzir e gerar lucro. As salas de aula jamais serão democráticas se persistirmos nesse ambiente escolar em que as grandes empresas educacionais impõem aos alunos o dever de conseguir elevadas notas em vestibulares, alegando que o aluno de sua escola tem bons resultados. E, após que o resultado é obtido, divulgarem a nota alcançada como mérito da escola, quando o verdadeiro merecido é o aluno. O aluno não é beneficiado pelo sistema da “escola benevolente”, ele é quem conquistou seu direito de ingressar na universidade, direcionado pelo educador, o único com quem o mérito deve ser compartilhado.

Apesar dos avanços, o comportamento empresarial dos educandários privados vai persistir, por conta da mentalidade de seus administradores, que pressionam os funcionários para que tomem posturas mais duras em sala de aula, a fim de conseguir o produto desejado.

Você paga a escola. Se ela ensina seu filho para ele passar na universidade, é obrigação dela. Mas passar na universidade é ação do seu filho. Ele precisa querer, ele precisa escolher o que cursar, e se esforçar para tirar a nota necessária para ingressar no desejado curso.  A escola não tem direito de expor seu filho e a nota que ele conquistou, como fruto do seu sistema repressor e abusivo, que tirou tardes, noites e até madrugadas do seu filho, um tempo que ele poderia ter dedicado à verdadeira produção cientifica, cultural e social.

Resguardados por lei o dever da educação para fins de mercado de trabalho e formação social, as escolas privadas de alto porte tem se desviado do fim de gerar bons profissionais e cidadãos e se dedicado à obtenção de notas elevadas em vestibulares. O sucesso de uma escola deveria ser atribuído ao nível de satisfação dos seus clientes e funcionários, ou seja, alunos e educadores. Uma escola com alunos que desejam abandonar o estudo e professores desestimulados, mas que possui alta aprovação no ENEM, não é uma escola, é simplesmente mais uma empresa que busca vender seu produto.

Uma educação falsa está sendo vendida neste país, tome cuidado aonde você coloca seu filho, pois a nota alta que ele será pressionado a conseguir vai contribuir para as estáticas de aumento de depressão, insatisfação com a vida, abandono do estudo e pior, suicídio.

Precisamos tornar a escola um ambiente atrativo, para educandos e educadores. Mas para isso é de importância minar o poder de administradores que desejam impor seu anseio por produtividade, e favorecer empresas educacionais com verdadeiro compromisso de construção do aluno como profissional e cidadão. Escolas que busquem o sucesso do aluno, não o seu próprio.

Os pais precisam monitorar as atitudes das instituições de ensino. Os alunos e educadores precisam ter abertura para dialogar com a direção sobre os problemas que encontrarem, e a direção precisa ouvi-los e investir para que o ambiente torne-se agradável à educação. Quanto ao Estado, deve aprovar leis e políticas que inibam a permanência e o surgimento de mais empresas desumanas para o mercado educacional. Precisamos “desostilizar” as salas de aula, pois um ambiente hostil ao aluno e ao educador, é hostil a educação.

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