Esse final de semana foi bem agitado para a política internacional. Em plesbicito, realizado na quinta-feira (Dia 23/06) e tendo resultado divulgado na sexta-feira (Dia 24/06), a população do Reino Unido declarou insatisfação com a União Europeia e decidiu que o país não permanecerá no bloco econômico. Angela Merkel, a chanceler alemã, François Hollande, presidente da França, assim como o primeiro-ministro da Itália e inúmeras outras autoridades da Europa estão reunidas hoje para discutir o Brexit, junção das palavras do inglês “Britain” (Grã-Bretanha) e “exit” (Saída), usado para nomear a saída do país do bloco econômico.

 

Mas por que um país deixaria a União Europeia, que, na cabeça de um latino, é tão rica e produtiva para o crescimento da Europa? As razões confundem-se, mas tudo na política é parte de um processo, e não foi do nada que uma das nações mais poderosas do mundo e da União Europeia decidiu simplesmente sair de um bloco que, até agora, nunca tinha perdido um membro.

Primeiramente, precisamos entender o que é o Reino Unido. (Essa foi uma pergunta que me fizeram muito no final de semana) Reino Unido é um Estado soberano formado por quatro nações: A Escócia, a Inglaterra, a Irlanda do Norte e o País de Gales. Para explicar melhor, são quatro nações distintas, com primeiros-ministros próprios, cultura própria e até diferenças judiciais, mas todas são unificadas debaixo do mesmo chefe de Estado e do mesmo parlamento. Todas as nações do Reino Unido são subalternas a uma monarquia constitucional reinada por Elizabeth II e existe o Parlamento do Reino Unido, com sede na capital do UK (Sigla para “United Kingdom”, Reino Unido em inglês), a famosa cidade de Londres.

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Sede do parlamento britânico em Londres

Em segunda mão, precisa-se compreender a União Europeia. Após a Segunda Grande Guerra, a Europa precisou reinventar-se politicamente. O continente estava arrasado. Através de diversos tratados, as nações aos poucos foram sentindo cada vez mais a necessidade de se unirem, formando os primeiros blocos econômicos do mundo. Hoje, a UE promove a união dos países membros, com integração econômica através da Zona do Euro (Países que tem o euro como moeda oficial), da livre circulação de capitais, mercadorias e pessoas. O poder da UE é tamanho, principalmente na economia, que é considerada (Apesar de ser um bloco econômico) uma superpotência, com representação no G8 e na ONU.

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Sede da União Europeia em Bruxelas

O Reino Unido ingressou na União Europeia em 1973. Os motivos que levaram uma maioria britânica a votar pelo Brexit foram, segundo eles, a incapacidade da União Europeia em lidar com a situação dos imigrantes e o investimento absurdo feito pelo Reino Unido no bloco, enquanto o mesmo não tinha como principal foco investir no Reino Unido, um dos mercados mais sólidos da economia global. Mas as coisas não ficaram complicadas apenas recentemente, desde a adesão do UK à UE, o Reino Unido tem posto dificuldades e limites, não aderindo à Zona do Euro, permanecendo com sua moeda, a libra esterlina.

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O primeiro-ministro do Reino Unido, David Camaron.

O primeiro-ministro do Reino Unido, David Camaron, em sua eleição, reconhecendo a insatisfação popular com a União Europeia, prometeu a realização de um plebiscito sobre a permanência do país no bloco, porém o partidário, que se posicionou contra o Brexit, acabou por perder a campanha pelo Bremain (junção das palavras do inglês “Britain” com “remain”, que significa “Grã-Britânia permanece”). Logo após o resultado da votação ter sido liberado, Camaron renunciou ao cargo e anunciou que permaneceria até Outubro. O próximo primeiro-ministro deve ser eleito até dia 2 de Setembro. Por hora, não temos nenhum candidato confirmado.

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Interior da Bolsa de Valores de Tóquio.

As bolsas de valores, voláteis como são, foram as primeiras a sentir o impacto do Brexit, antes mesmo da confirmação da saída do Reino Unido. De imediato, as bolsas na Ásia despencaram. Shanghai, Hong Kong, Sidney e Tóquio passaram por apuros. A bolsa de Tóquio caiu 7,92%. A última vez que a principal bolsa de valores japonesa, uma das mais dinâmicas e importantes do mundo, sofreu tal queda foi naquele triplo desastre em 2011, quando o Japão foi atingido por um terremoto, seguindo de um tsunami e um desastre nuclear em Fukushima. A subida do preço do iene também apavorou os japoneses, já que o Japão é visto como posto seguro para guardar o dinheiro em tempos de crise, devido ao baixíssimo preço da moeda japonesa. Manter o iene barato é fundamental para a economia japonesa.

 

Os mercados futuros da Europa e dos Estados Unidos também foram abalados. O próprio dólar enfrentou quedas. E a BOVESPA, a Bolsa de Valores de São Paulo, a principal da América Latina, além de sofrer com a crise brasileira, terminou em queda esse final de semana por causa do Brexit.

Os 51,9% dos britânicos que votaram a favor do Brexit assombraram de tal forma a economia que mesmo os bancos do Reino Unido precisaram se preparar, com a libra esterlina atingindo o menor valor em relação ao dólar em 31 anos. A bolsa de Londres operou com queda de 8%. As ações dos principais bancos da Bolsa de Valores de Londres apresentaram queda de 30%. A bolsa de valores de Madrid abriu com 15,90% de prejuízo, e as outras bolsas europeias sentiram impactos parecidos.

Não tão imediatas quanto na economia, as consequências políticas ainda são rápidas o suficiente para abalar toda a estrutura global. Assim que o Brexit foi confirmado, surgiu o Frexit e o Nexit, ou seja, “France exit” e “Netherlands exit”. Basicamente, a vitória e o sucesso do plesbicito para os nacionalistas britânicos, deu força também para movimentos “separatistas” na França (France em inglês) e Países Baixos (Netherlands em inglês). Merine Le Pen e Geert Wilders, deputada e deputado de extrema direita da França e Holanda, respectivamente, já levantam hipóteses sobre referendos idênticos em seus países. Movimentos da Suíça, Áustria, Itália, Grécia, Dinamarca, inúmeros partidos europeus de direita estão agora militando por consultas populares a respeito da permanência de suas nações na União Europeia, o que preocupa Bruxelas (Capital da UE).

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Bandeira da União Europeia

O fim do bloco é impensável para os líderes dos governos, porém certa parcela europeia discorda e acha que o fim da União Europeia está próximo.

Em longo prazo, temos outros conflitos desenvolvendo-se. Não sendo mais parte da União Europeia, a relação do Reino Unido com as principais potências europeias fica prejudicada, e a histórica aliança com a França, desenvolvida durante as duas grandes guerras, passa a desinteressar ao país francês, que pretende endurecer para o Reino Unido, mostrando a todas as nações europeias a que tipo de isolamento estão suscetíveis aqueles que decidirem apartar-se da União Europeia. Hollande, presidente da França, e outros chefes europeus, exigem uma saída rápida da Grã-Bretanha. Merkel, a chanceler alemã, parece ser mais

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Angela Merkel, chanceler da Alemanha.

compreensiva, entendendo que será preciso tempo para o Reino Unido se entender fora do bloco econômico, e está disposta a esperar, dentro do que é previsto pelo artigo 50 do tratado de Lisboa, 2009 (A última drástica intervenção na lei europeia). O artigo 50 prevê a saída de um país do principal bloco econômico europeu, e afirma que o processo deve se dar em apenas dois anos.

Para a União Europeia, significa procurar uma nova superpotência econômica e uma cidade com movimentação de capital tão intensa quanto Londres. Para França e Alemanha, isso significa estreitar relações e tentar suprir o rombo que o Reino Unido deixará investindo uma na outra.

E o que isso significa para os países não europeus? Para nações como o Japão, talvez não

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Cidade de Tóquio, capital do Japão.

seja uma mudança muito feliz. A situação foi tão extrema que no sábado, dia 25/06, representantes do Banco do Japão fizeram uma reunião de emergência para discutir os devastadores impactos do Brexit sobre a terceira maior economia do mundo. O Japão construiu diversas fábricas na Grã-Bretanha (Devido à facilidade de investir no local). Dessas fábricas, toda a tecnologia japonesa era distribuída para Europa com baixo custo, devido à livre circulação de matéria e capital entre os países da UE. Agora que o Reino Unido entrará em processo para sair da União Europeia, o Japão e os países com fábricas no UK destinadas a distribuir para toda União Europeia precisam achar um novo forte de investimento, sendo o mais próximo e visto, a Irlanda. Ou seja, inúmeros cidadãos com os empregos em fábricas de transnacionais não britânicas estão agora ameaçados. O Brexit, como já havia sido alertado pelo governo britânico, vai aumentar a taxa de desemprego.

A situação é parecida para os comerciantes britânicos que dependiam de negociações com a União Europeia. Sendo Londres o principal centro desse comércio, obviamente, a maioria londrina votou pela permanência no bloco, porque assim, a cidade poderia continuar sendo o cerne da comercialização na Europa. Então, entramos num próximo mérito, o Reino Desunido.

A votação foi extremamente caótica quando divulgada. Escócia e Irlanda do Norte votaram pela permanência no bloco, os londrinos e ingleses de grandes cidades fizeram o mesmo, porém a população interiorana da Inglaterra e o País de Gales decidiram pelo Brexit. Como manter unido um reino de quatro países em que dois votam uma coisa e dois outra? Como manter unido um país em que a capital votou uma coisa e o resto do país outra? Foi assim que o Reino Unido e a Inglaterra se encontraram.

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Nicola Sturgeon, primeira-ministra da Escócia

A primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, que encabeçou o plebiscito pela independência da Escócia em 2012, declarou que, já que mais de 60% dos escoceses “veem seu futuro como parte da União Europeia”, está claro e evidente que o povo escocês e o resto do Reino Unido estão divididos, de maneira mais intensa que antes. Com esse argumento, a primeira-ministra pretende convocar outro referendo pela independência da Escócia. Irlanda do Norte não fica atrás, seus líderes republicanos desejam consultar a população para unificar as “Irlandas”, a República da Irlanda e o Reino da Irlanda (Irlanda do Norte). Caso o Reino Unido não satisfaça mais a população norte-irlandesa, o reino se unirá com a República da Irlanda.

De todas as possibilidades e movimentos, certamente o mais impressionante foi a coleta

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Cartazes de manifestantes apoiadores do Reino Unido na União Europeia dizendo “Vote para permanecer”

de assinaturas e procura de apoio para a independência de Londres. De diversas formas, o Brexit ameaça destroçar o Reino Unido em diversos países.

E para o Brasil? Isso influencia em algo? Qualquer coisa que acontecer num país influência em todos, ainda mais quando se trata da União Europeia e do Reino Unido. Os impactos foram maiores que a queda nas ações da BOVESPA. A MERCOSUL perdeu o principal aliado para uma parceria que há anos vem buscando com a União Europeia. O Reino Unido era o principal apoiador dessa parceria. Porém o presidente interino, Michel Temer, se posicionou sobre o assunto: “O Reino Unido decidiu por uma consulta popular. Portanto, decisão política nós não vamos discutir. Precisamos verificar quais são as repercussões econômicas que possam atingir o Brasil. Meirelles vai se encontrar com o representante do governo britânico, com quem vai discutir essas questões”, afirmou ele em entrevista para a Rádio Estadão.

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Interior da BOVESPA, São Paulo

Temer destacou que temos que respeitar a soberania de todas as nações e os desígnios populares. O que o povo britânico decidiu, não compete à nação brasileira, porém é da nossa importância analisar os impactos no Brasil e nos brasileiros (Principalmente para os residentes no Reino Unido), visto que o tratado com a União Europeia era uma das maneiras imediatas do governo Temer para tirar o Brasil da crise. Na mesma sexta-feira em que o Brexit foi confirmado, o presidente interino escalou o ministro da fazenda, Henrique Meirelles, para reunir-se com o diplomata britânico no Brasil para discutirem o Brexit para o Brasil. O Reino Unido declarou interesse em ampliar as relações com o Brasil.

Os Estados Unidos também se posicionaram a favor do povo britânico e afirmou que seu relacionamento histórico com a antiga metrópole não muda.

Encerrando por aqui a linguagem jornalística que o artigo acabou assumindo, gostaria de comentar o que eu penso sobre o Brexit. Sempre que eu falo de guerras com meu irmão, ele me pergunta quem é o bem e o mal e eu respondo “Numa guerra não existe bem e mal, apenas lados”. A política é uma guerra e, da mesma forma, não existe bem e mal, apenas lados. Todas as coisas que acontecem, ainda mais em escala global, serão boas para alguém e ruins para outrem. Se o Brexit foi bom ou ruim, é difícil dizer. Foi uma mudança, e mudanças são ruins quando não são esperadas. O mundo precisa mudar, a geopolítica existe de mudanças. Por fim, espero que as nações tenham maturidade para seguir com calma diante desses fatos e que cada uma possa enfrentar da melhor maneira para sua população.

Todas as informações aqui foram obtidas de diversos jornais. O objetivo do artigo é reunir o maior número de informações possíveis até o momento.

 

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