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Maria Quitéria de Jesus, a primeira mulher a militar pelo Brasil

Presidentas, generalas, soldadas, prefeitas, médicas, professoras, engenheiras, pedreiras, chefes de família… Certamente, ser mulher mudou muito ao longo da evolução humana. Hoje, finalmente, passamos pela maior estágio da transformação do papel feminino na sociedade, onde os homens começam a reconhecer o poderio e autoridade das mulheres e sua importância para o desenvolvimento de uma sociedade sã e sustentável. O feminismo e a luta pela emancipação feminina não é mais bandeira de corajosas mulheres, mas também de homens que partilham de um novo conceito de “ser homem e ser mulher”. Com felicidade, sou eu um desses!

A mulher me fascina desde sempre, e de diversas formas. E essa não será a primeira vez que lerão minhas palavras falando desse sentimento que desenvolvi pelas minhas iguais, pelas minhas companheiras. Compartilhamos da mesma luta, luta essa que outras e outros como nós também compartilharam no passado. E é ao passado do Brasil que remeteremos para conhecer uma das mais gloriosas figuras da história brasileira, símbolo da feminilidade brasileira, que mudou o curso da sociedade e fascinou a mim e a muitos, tanto à sua época como atualmente.

Se hoje o Brasil é independente, se vive suas crises aparte das de Portugal, é obra muito maior do que o grito de um príncipe português às margens de um nada mágico riacho. Um país tão imenso, diverso, complexo, paradoxal, não surgiu dos sonhos da coroa portuguesa, mas do coração dos brasileiros. E uma dessas sonhadoras foi Maria Quitéria de Jesus, e é esta heroína da Guerra da Independência que, com toda certeza, Eu gostaria de conhecer…

Maria de Jesus é iletrada, mas viva. Tem inteligência clara e percepção aguda. Penso que, se a educassem, ela se tornaria uma personalidade notável. Nada se observa de masculino nos seus modos, antes os possui gentis e amáveis.” ‘Journal of a voyage to Brazil’, da escritora britânica Maria Graham sobre Maria Quitéria de Jesus.

A vida de Maria Quitéria começa no interior da Bahia, no sítio de seu pai, no atual município de Feira de Santana. Era filha primogênita de Maria de Jesus e Gonçalo Alves de Almeida. Ainda criança, com dez ou onze anos, Quitéria perdeu sua mãe e se encontrou na obrigação de assumir a criação de seus dois irmãos. Maria não sabia lutar com palavras, era analfabeta, porém aprendeu a montar, sabia caçar e manejava uma arma de fogo como extensão do próprio corpo. Era disciplinada e centrada.

Seu pai ainda se casou mais uma vez, e perdeu a esposa, que morreu sem deixar filhos. Logo mais, casou-se por uma terceira vez, com Maria Rosa de Brito, com quem teve mais três filhos. Rosa observava a independência e autossuficiência de Maria Quitéria. Aos olhos da mulher da época, devia tachar a jovem Quitéria como uma insubmissa, por isso, ambas se estranhavam.

Mas quando é que Maria se tornou a heroína a quem vim exaltar? Calma, aconteceu logo após o famoso grito do Ipiranga, em 1822. Pensava eu que a separação de Brasil e Portugal tivesse sido pacífica e cara, no seu sentido literal. Mas me enganei, não sobre o preço, mas sobre a parte “pacífica”. Os portugueses não receberam bem a emancipação de um de seus mais importantes territórios. E, para Portugal, o Norte e o Nordeste eram pontos estratégicos para reconquistar o recém-formado país, e mantiveram ocupação militar nas regiões, principalmente na Bahia. Se para Portugal era importante permanecer no Nordeste e no Norte, para os brasileiros era importante expulsá-los de lá. Foi então que o príncipe Dom Pedro I começou a buscar apoio.

Maria Quitéria estava noiva quando agitações contra o domínio de Portugal sacudiram a Bahia. Em janeiro de 1822, tropas portuguesas moveram-se para Salvador, no episódio que eternizou Joana Angélica, que se martirizou para defender o Convento da Lapa. Em 25 de Julho do mesmo ano, a Câmara Municipal da vila de Cachoeira aclamou o príncipe-regente Dom Pedro I como “Regente Perpétuo” da nação brasileira. Em 6 de Setembro, instalou-se na vila o Conselho Interino do Governo da Província, que defendia de toda alma o movimento pró-independência da Bahia. E é deste Conselho que partem emissários em uma busca incansável por toda a província baiana de homens para formar o “Exército Libertador”, ou seja, o exército que lutaria pelo reconhecimento da soberania do Brasil e de Dom Pedro como imperador.

Maria Quitéria já ouvia e encantava-se pela ideia de independência há tempos, mas quando surgiu à chance de sair do seu mundo rural para batalhar pelo seu sonho de um país livre, ela não perdeu a chance. Sabendo da formação do Exército Libertador, Maria pediu permissão ao seu pai para alistar-se, mas ele a negou.

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Quadro de Antônio Parreiras: O Primeiro Passo para a Independência da Bahia.

E revelou-se em Quitéria a insubmissão que Rosa de Brito talvez já identificasse. A jovem fugiu para a casa de sua meia-irmã Tereza e com a ajuda dela e de seu cunhado, José Cordeiro de Medeiros, travestiu-se, cortando os cabelos e vestindo roupas masculinas, e passou a desempenhar o papel do soldado “Medeiros”. Medeiros se alistou e conseguiu ingressar no exército. O soldado Medeiros integrou o Batalhão de Voluntários do Príncipe (Apelidado de Batalhão dos Periquitos, por causa das golas e do punho verde que usavam nos uniformes).

Duas semanas depois, seu pai a descobriu, mas o major José Antônio da Silva Castro (Avô do poeta romântico Castro Alves) reconheceu em Quitéria habilidades que poucos combatentes tinham e uma bravura admirável. Ele não permitiu que a mulher fosse levada de seu batalhão. Após ter sido exposta e apoiada, Maria pôde assumir-se como era, uma mulher. Deram-lhe direito a adaptar seu uniforme. Ela mesma tratou de fazer um saiote para usar e fez da sua veste de guerra tão feminina quanto ela, adicionando até penachos ao capacete. Agora, não mais Medeiros, mas Quitéria, tornou-se a primeira mulher a assentar praça numa unidade militar.

Maria, com seu novo uniforme, seguiu com os periquitos para participar da defesa da ilha de Maré, saindo vitoriosa logo depois também em Conceição, Pituba e Itapoã. Em Fevereiro de 1823, mais uma vez Quitéria mostrou sua bravura de mulher ao atacar uma trincheira inimiga e fazer, ela mesma, prisioneiros (Dois, segundo dizem alguns autores). A soldada, por si só, os escoltou ao acampamento.

Em 31 de Março, ocupando o posto de Cadete, por ordem do Conselho Interino da Província, Quitéria recebeu uma espada e todos seus
acessórios, ferindo com sua nova arma mais um direito dado apenas aos homens, o direito de portar uma espada.

Em 2 de Julho de 1823, quando o Exército Libertador caminhou vitorioso pelas ruas de Salvador, Maria Quitéria foi saudada, homenageada e ovacionada pela população, que festejava a vitória brasileira e baiana sobre os lusitanos.

Para encerrar a linda história dessa brasileira, nada melhor que um final feliz. Quitéria teve um fim bem diferente de sua “companheira” francesa, Joana D’Arc, que foi condenada pela Igreja Católica à fogueira. Maria foi convocada pelo próprio Dom Pedro I para ser condecorada, diante de todo o novo Brasil, com a “Ordem Imperial do Cruzeiro do Sul”.

Vitoriosa e honrada, Quitéria precisava apenas restaurar seu relacionamento com seu pai, e pediu ao próprio imperador que redigisse uma carta pedindo pelo perdão dele pela desobediência da filha. Assim fez Dom Pedro I pela sua poderosa guerreira.

Maria entregou a carta ao seu pai e foi perdoada. Casou-se com seu antigo namorado, o lavrador Gabriel Pereira de Brito. Com ele, teve uma filha, Luísa Maria da Conceição. Quitéria viveu em anonimato desde então. Quando ficou viúva, retornou à terra natal para receber a herança de seu pai, mas a burocracia à fez desistir do inventário. Maria morreu quase cega e em esquecimento, no ano de 1853. Seus restos estão enterrados na Igreja Matriz do Santíssimo Sacramento.

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Estátua em homenagem à Maria Quitéria de Jesus

Quitéria guerreou pela independência do país, mas mal sabia ela a guerra muito mais longa que havia começado, a Guerra da Independência da Mulher Brasileira. Maria inspirou muitas outras e outros, sendo hoje homenageada de diversas formas. A maneira mais significante, talvez, seja o decreto ministerial declarado após cem anos de sua morte, que colocou uma imagem sua em todas as repartições militares brasileiras, como símbolo de patriotismo. Ela ainda é patrona do Quadro Complementar de Oficiais do Exército Brasileiro. Segundo o site do próprio Exército, “A mais autêntica homenagem que se pode prestar aos grandes vultos da Pátria é manter viva a lembrança de seus feitos, interpretar os acontecimentos de que participaram e recolher os dignos exemplos que nos legaram.”.

Maria Quitéria não se abateu por ser mulher, e mostrou que, mesmo de um sexo diferente dos demais militares, tinha a mesma garra que qualquer homem que já guerreou pela nação. Infelizmente, apenas em 1943 as mulheres foram inseridas oficialmente no cenário militar brasileiro, limitadas à área da saúde. No Parlamento, menos de 15% das cadeiras são ocupadas por mulheres. Em muitas profissões, principalmente em grandes empresas, as mulheres recebem salários inferiores aos de homens, ainda mais em cargos de administração, e, em certos locais, é preferível homens que mulheres para os trabalhos. As desculpas são inúmeras, não faltam motivos para refabricar ideologias de gênero que inferiorizam a mulher, mas está na hora de darmos um basta nas desculpas.

Tenho certeza que o pai de Quitéria teve vários motivos para proibi-la de ir à guerra, mas graças ao ímpeto de mulher que Maria possuía, hoje temos um país liberto. Para o bem ou para o mal, é graças a Maria Quitéria de Jesus que nos dizemos Brasil.

Ainda há muito que conquistar, mas fizemos algum progresso e não podemos parar. Então, pessoas, nem mulheres nem homens, parem de se curvar às desculpas tolas e lutem por seus ideais. Mostrem que estão corretos e que são capazes. Batalhem para provar ao mundo que podem muda-lo para melhor! Maria Quitéria tinha Escrito no Sangue o poder de mudar o mundo, e você também tem.

 

 

 

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