Literando: Conto-A Casa da Artista.

Meu nome é Melissa. Sou separada, não tenho filho e minha melhor amiga é um poodle. Desde que meu casamento fora arruinado por um adultério desventuroso, minha vida ficou sem rumo. Eu me entreguei de mais ao homem que chamei de meu, e quando vi que ele não era meu, fiquei sem rumo. Eu me dei tanto a ele que, quando ele foi embora, levou a mim mesma. Separar-se dele encerrou minha vida e eu precisava começar uma nova.

O primeiro passo era uma casa, e eu havia encontrado uma perfeita, com um preço perfeito. Uma casa que refletia quem eu era naquele momento, uma velharia esquecida, destroçada, largada. Quando olhei para aquele prédio nada atrativo, pensei “Essa casa me entenderá, ela sabe o que é ser deixada de lado”.

A vizinhança é boa, silenciosa e quieta, talvez até demais. No máximo algumas crianças brincam na rua, mas nenhum tinha coragem de ir para frente da minha nova morada, pois ela as assombrava. A casa tinha ainda os ares do século XVII. Era rústica, bonita, sua fachada era amarelada e os detalhes eram admiráveis. O prédio fora reformado pela última vez há dez anos, e por isso foi vendido por um bom preço. Eu tinha muito que fazer ali.

A parte que eu mais amava na casa era, com toda certeza, seu jardim, o qual chamei “minha alma”. Era um jardim morto, cinzento, e toda vez que eu olhava para a janela e via a mais externa parte da minha casa, via também o mais interno do meu ser. Como feio era o jardim, era minha vida. Pelo menos minha cadelinha nunca me desamparou.

Era incrível sentir a liberdade da casa própria e da “solteiragem”. Tinha que reformar toda aquela casa acaba e usar dos meus dons de pintura e desenho. Eu sou pintora desde pequena, então não seria difícil deixar essa casa menos feia. Eu havia comprado todo o material e faria todo o trabalho eu mesma. Faria tudo devagar e calmamente, como gostava.

– Nina? – Chamei minha amiga, e ela veio até mim, latindo alegre como sempre. – Então, gostou da casa?

Ela me respondeu com dois latidos, que eu entendia muito bem.

– Legal, eu também.

Escutamos um estranho barulho vindo lá de cima. Olhamos para o teto, assustadas. Já trêmula, eu falei.

– O vendedor tinha me falado desses sons. Não sei se vou me acostumar.

O barulho era intenso, era como se o andar de cima estivesse vivo.

– O que você acha da gente subir e ver o que é?

Minha corajosa cadelinha empinou a cabeça e latiu.

– Certo garota, então vamos juntas.

Subimos degrau por degrau. Meu corpo estremecia. Os barulhos aumentavam, eu sentia que havia algo mexendo lá em cima. E quanto mais eu me aproximava, mais perturbado aquilo ficava. Até minha determinada Nina estava cautelosa. Quando finalmente conseguimos chegar ao último dos dezesseis degraus, encontramos o que nos fazia temer a noite… Nada. Não havia nada. Ou melhor, não se via nada.

A cachorra choramingou.

– Nina, se cale.

Eu analisei todo lugar. Havia muitas teias de aranha, as paredes estavam completamente destruídas. Mas não com marcas de deterioração, mas de mãos, faças, balas. Alguém havia destruído aquele lugar. As marcas também se espelhavam pelo chão de madeira. Havia manchas por todo lugar, manchas vermelhas.

– Como não notei isso quando vim aqui pela primeira vez?

Foi então que respirei fundo e senti o cheiro do lugar. Era um cheiro peculiar, moribundo, cheiro de morte. Alguém havia brigado ali e havia terminado em morte.

– Melhor sairmos daqui Nina, vamos.

Quando me virei para descer, Nina estava paralisada, assustada, e latindo vorazmente. O cachorro estava ali, parado, olhando fixamente para o canto da parede, como que visse alguém. Ele latia incansavelmente e tentava espantar o que quer que fosse.

– Nina, você está me assustando. Vamos sair daqui.

Comecei a escutar sons bem baixos, de choro, choro de mulheres, homens e crianças. Elas e eles gritavam socorro, pediam para que alguém os ajudasse. Balancei a cabeça, tentando esquecer, mas parecia que o barulho não estava dentro da minha cabeça, mas fora. Escutei coisas se quebrando, e foi como visualizar o que ocorrera ali no dia 15 do mês de Maio do ano de 1899, sete anos após a família Lima comprar a propriedade. Como eu sei disso? Não sei, mas desde aquele dia, de muitas coisas fiquei sabendo.

Desci correndo, e, desde então, todo dia me são entregues novas imagens, de novos assassinatos. E eu nunca via o rosto de assassino, mas sabia como ele matara cada uma de suas vítimas. Facadas, afogamentos, enterrados vivos, cada um mais criativo que o outro.

Um dia então, descobri, não era um assassino, mas vários. Cada família e pessoa que morou ali se revelou um assassino. A casa continuava a me contar seus segredos e eu estava cada vez mais amiga dela, de tal forma, que até de Nina esquecera. Minha casa passou a ser minha verdadeira amiga. Ela me contava o que sabia e eu o que ela queria. Gostava de ouvir seus conselhos. Ela disse que mudaria minha vida, me faria sentir prazer.

Quando observava as crianças brincando na rua, a casa me mostrava como deveria matar cada uma. Eu me divertia com facadas, pois, dependendo de onde ferisse, poderia ouvir minha vítima gritar e gritar, enquanto o sangue pintava-lhe a pele. Minha casa ensinou-me a ser uma nova artista, artista de corpos. Ela me ensinou a revolucionar a arte. Era assim que me conheciam, esta era a minha marca.

Foi com o desenho de um rosto feliz que encontraram o corpo da minha cachorrinha. Eu não queria enterrá-la, afinal, o que é bonito deve ser exposto, e eu a coloquei na frente da casa, para todos verem. Às vezes, quando a casa lançava-me a vontade de desenhar, fazia no meu próprio corpo ou nas paredes, para saciar à vontade. Eu precisava de algo para matar o meu desejo por criar. E os vizinhos pareceram interessantes.

Uma série de desaparecimentos se seguiu, sete crianças, dois idosos, um casal de adultos, uma jovem e outros dois melhores amigos, que continuaram juntos até a morte. Cada um com um desenho diferente, afinal, sou criativa. Eu sempre expunha minhas obras em suas próprias casas. Eu as pregava nas paredes, na trágica posição de cruz.

Os demais humanos não sabiam reconhecer o meu talento, mas a casa me valorizava, ela me dizia que eu era muito talentosa e que não podia parar. Precisava fazer com que todos me conhecessem. E eu já era bem falada. Obras minhas, quando apareciam, eram estampadas em jornais e a polícia era louca para descobrir quem era a tão brilhante artista.

Depois de sete anos no ofício de pintora e desenhista, me encontraram e me levaram cativa. Longe da casa, eu não podia viver. Quando me puxaram de lá e interditaram-na, foi como arrancar de mim a minha vida. Eu já havia morrido uma vez e não morreria de novo. A casa me ensinou a viver de um jeito que me deixava feliz.

Hoje, trancada numa cela, eu roo as grades e grito todas as noites, sonhando com o dia que retornarei para os braços da minha amada casa, que cuidou de mim e me deu uma vida nova. Eu estava tão só e ela me ajudou a mudar. Ela me ensinou a usar uma nova cor, a cor vermelha. Não conseguia parar de imaginar, quem seria o próximo a morar naquele lugar? E a melhor parte, o que a casa lhe ensinaria de novo?

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