Literando: Conto – Para onde eu corro.

Então eu corri, para o mais longe que podia. Era só o que podia fazer, fugir, para onde não me conhecessem, e nem quisessem conhecer. Chegar ao além, ao oceano do esquecimento. Onde não lembraria do passado, nem de ontem, nem de hoje. Esqueceria das coisas boas… Mas também das ruins, e o que não faria para esquecê-las.

A distância era grande, mas fugir não era novidade. Nasci entre covardes, uma família abastada que roubava dos pobres, que tinha muito, e por isso achava que podia ter mais. Quando o patriarca caiu nas mãos da juíza, seria preso, mas desapareceu, preferiu ser foragido, deixando para trás seus filhos e tudo que lhe diz respeito. Sim, isto era algo que eu estava disposto a esquecer. Como fui abandonado, como fui machucado, por um corrupto que foi corrupto até para sua família. O único amor do político é o poder.

A mãe não foi mais a mesma, não podia mais sustentar uma vida de luxo. Porque viveu à custa de um marido que não a deixara ser a mulher que queria, restringindo-a de ser realizada, enchendo-a de presentes para apagar sua natureza machista,  agora estava à deriva, e pedia ao lado dos mesmos pobres que o diabo, do qual descendo, roubava todos os dias.

Os nomes da elite mudaram, mas o comportamento era o mesmo. Roubavam-nos, porque tinham muito, e porque tinham muito, deveriam ter mais. A deturpada mente do rico… Maldito é aquele que detém mais do que precisa e que não ajuda ao necessitado.

Eu não poda viver assim. Mas as ruas, companheiras do renegado, apontaram-me o beco dos vídeos que destroem o corpo. Ao provar dos delírios do mundo, senti-me um abençoado com os sonhos da Jurema, do livro Iracema. Cada tragada era como um gole da sagrada bebida dos tabajaras de Alencar. Mais uma vez eu fugia, fugia da realidade, para sentir que tudo era feliz. E meu corpo ia se denegrindo.

Pensava eu que era só uma fase, mas neste mundo não existem fases, existem primeiros passos. Você nunca se liberta de um vício destruidor. Pode até superá-lo, mas uma vez que experimenta e gosta, condena a si mesmo. Seu corpo sempre sentirá a necessidade, mesmo que sua mente a combata.

Milagroso é ver aquele que verdadeiramente é liberto. Eles existem, mas a obra humana é incapaz de entendê-los. Libertos do mundo, filhos da Paz. Corri para eles, pedi por misericórdia. Fui atendido e acolhido. Mas eu não era digno, não podia viver num lugar onde havia a Felicidade.

Então eu corri, para o mais longe que podia. Era só o que podia fazer, fugir, para onde não me conhecessem, e nem quisessem conhecer.  Chegar ao além, ao oceano do esquecimento. Onde não lembraria do passado, nem de ontem, nem de hoje. Esqueceria as coisas ruins… Mas também as coisas boas. E eu estava mesmo disposto a esquecê-Las?

Então Elas vieram até mim e disseram que não me esqueceriam. Foi assim que entendi! Eu não podia esquecê-Las! Eu não era digno, nenhum é, nenhum ser humano é digno da Felicidade que possui, mas Ela, a Liberdade, veio até mim e me fez digno. A bandeira branca da Paz, manchada de sangue, levantou-se sobre mim e fui coberto por ela, e, como nunca me aconteceu, tive abrigo. E habitou em mim a Liberdade.

Hoje eu sou livre, e não corro mais por fuga, mas para libertar os que continuam presos. Hoje, eu corro para você.

 

 

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