Literando: Conto – A Democracia morreu!

No Brasil, nasci fraca e desnutrida, de um parto forçado, um quase aborto. Fui para a fuga de um imperador e a glória de um militar. Fui liberdade presa e verdade mentirosa. Macularam-me, feriram-me, torturaram-me. Não me deixaram cuidar do povo… Não me deixaram agir… E ainda assim, culpavam-me pelas crises do país. E todos eles, todos meus inimigos, reuniram-se numa assembleia de corrupção, para dar-me um fim adequado aos seus desejos.

Juntaram-se todos, homens viris, maus de coração e torpes em seu proceder.

Autocracia – O povo fala demais. O governo não pode nem mais trabalhar. Essa republiqueta deixou o povo brasileiro muito vigilante, ao ponto de não permitir mais seu governo tomar decisões. Falam de direitos e deveres, como se entendessem de alguma coisa.

Monarquia – Não passam de tolos. Em nossas eras, ficavam quietos, alheios a política. Fazíamos o que queríamos enquanto abestalhado o povo observava. E mantinham-se as coisas como deviam ser: o governo com o poder de mandar, e o povo com o direito de ficar em silêncio.

Autocracia – Eles não entendem que o governo deve governar, pois só ele compreende as verdadeiras necessidades da nação?

Monarquia – Todas as vezes que o povo voltou-se contra meus semelhantes, as coisas não terminaram bem. Vide a França ao derrubar sua monarquia com a Revolução Francesa, apenas para um autocrata assumir, o mesmo com a Rússia, com a Revolução Russa, que culminou numa ditadura.

Autocracia – Pelo menos foram grandes governos em suas eras. Napoleão e Stalin trouxeram ordem aos seus Estados.

República Oligárquica – De fato, mas você se esquece de onde vem o verdadeiro poder. O poder está em quem aparelha o Estado e mantém as contas do governo, ou seja, dos ricos. O poder de votar, de coordenar ao Estado, compete àqueles que contribuem para o movimento da economia, como era comigo.

República da Espada – Ora, calem-se, mal sabem do que falam. Bem sabemos que poderíamos ter tido uma boa república, se certos vermes não tivessem ganhado liberdade. É culpa da mulher, que largou seu lugar nas cozinhas!

Monarquia – É culpa do negro, que deixou seu lugar nas senzalas!

Autocracia – É culpa da liberdade! É culpa dos direitos! É culpa do povo!

Todos dizem em coro – É culpa da Democracia!

Então eu, negra, mulher, minoria e maioria, a Voz das Ruas, voz de quem não tem voz, indaguei:

Democracia – O poder de cada um de vós emana de algo. Do sangue, da hereditariedade, da espada, da injustiça, da tortura. Mas o meu vem dos oprimidos! Eu trago Liberdade, Igualdade e Fraternidade a uma nação que vocês, homens, destruíram! A voz do povo é fiel e pura, é diferente e dissonante. Não é bonita, nem harmoniosa. Mas o Brasil me escolheu. Então que eu seja mártir se preciso, mas não abrirei mão do direito do povo! Do meu povo! Faz parte de mim ouvir e aceitar, mas lutarei, se preciso, até a morte para que os cidadãos brasileiros possam ser livres, de uma vez por todas! Livres da maldade da corrupção e da arbitrariedade! Livres de vós, imundos!

Juiz – Que sentimento bonito, o desejo de proteger os seus. Por permitir aos brasileiros falar e pensar, lhe declaro culpada e será punida com pena de morte.

Democracia – A verdadeira liberdade é ter o direito de morrer pelos direitos de outro.

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