Literando: Conto – Quatro Passos

Eu observava o ar gélido pela janela, envolvido em meus pensamentos, meus pesares, até ser interrompido pela porta que foi delicadamente aberta.

– Senhor, o casal chegou e o aguarda na sala.

– Informe-os que em breve estarei com eles para discutir os termos. Despache-os em seguida. – Henry continuava a teclar velozmente.

Já era um ofício antigo ajudar famílias ambiciosas a conseguir poder e influência através da compra e venda de mansões. O casal talvez estive interessado nisso.

– Meu senhor, – Começou o mordomo. – eles o informam que querem fechar o contrato hoje e prometem pagar o dobro por isso.

As palavras “pagar o dobro” mudaram o semblante do inglês, que logo levantou-se, vestiu-se apropriadamente e desceu do primeiro andar da casa. Após minutos de conversa e chá, assinaram alguns papéis e, pela sétima vez em três anos que moro aqui, aquela casa terá novos zeladores. Passo um, completo.

Aproveitei o momento e fiz dois novos amigos. Eu e Henry fomos convidados para as exuberantes festas que os ilustres compradores realizaram em seu novo lar. A cidadezinha de Wellington voltou-se novamente para aquela propriedade, mais formosa e misteriosa a cada morador. Ensinei àquele casal o dom mais exportado dos brasileiros, sabemos aproveitar uma festa. Após desfrutarem da minha diversão e sapiência, disseram-me para aparecer mais por ali. Passo dois, completo.

Eu e Henry voltamos àquela mansão diversas vezes. Nossos novos parceiros se abriam cada vez mais, permitindo-nos deslindar suas vidas rapidamente. Eles comumente enfatizavam a admiração, confiança e respeito que tinham por nós. Passo três, completo.

Concluímos, finalmente, que eles não passavam de ricos inúteis, não mereciam nosso mundo e atenção. Foi então que simplesmente desapareceram, mágica antiga, sua existência fora aniquilada, anulada, como se nunca tivéssemos nos visto. A família, polícia, vizinhos, todos procuraram, mas nós respondíamos o que podíamos: – Não sabemos, eles simplesmente desapareceram… Passo quatro, completo.

Eles sumiram como as outras famílias que moraram ali, das quais me aproximei e ganhei confiança. No final todos eram iguais, esnobes e indignos, e tiveram finais iguais. Sete famílias, vinte e duas pessoas, o casal atual, quatro passos, uma mansão, dois vendedores.  O resultado desta equação: Vinte desaparecidos, quatro dados como mortos, três suspeitos, dois compassas, um culpado… O juiz é legal, rico, movido a riqueza, não pela justiça, como eu gosto. Sendo assim, fiz amizade com ele. Passo um, completo.

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