Literando: Conto – Dois amores de um só amor.

Eram só duas crianças brincando nas estradas de areia. Correndo, jogando bola, escondendo-se, e no meio do “eu sempre vou encontrar você”, me perdia nos seus olhos, torcia para que eles viessem a mim, me encontrassem, então eu correria mais rápido que ele até bater na parede.

– Trinta e um, Júlia! – Então eu comemorava. – Ah! Estou salva! Você perdeu!

– Isso é injusto! – Ele dizia com aquele rostinho inocente de criança.

– Não é injusto se você não sabe correr como eu. – Ajeitei os cabelos. – Vamos, agora eu procuro.

Ele então corria e escondia-se, e repetíamos assim o dia inteiro, e não enjoava dele, nem ele de mim, e ficávamos ali.

Era um amor discreto, que secretamente desenvolveu-se, eram dois amigos, mas que podiam ser mais, ele me prometia:

– Quando crescermos, vamos nos casar! – Ele dizia.

– Por que não fazemos isso agora? – Perguntava.

– Isso seria estranho. Somos só crianças! Minha mãe não vai deixar tão cedo!

– Está bom, então vamos fazer uma promessa.

– Certo.

– A menos que seja eu, a menos que seja você, não teremos outro amor. Você promete?

– Prometo!

E a brincadeira continuava, dois infantis amantes, e eu, pobre garota, desconhecia a dor, até que ela chegou a nossa cidade durante nossa juventude. Olhe só, na curva da estrada vem Alice, correndo velozmente. Desastrosamente ele também andava por ali, foi então que vi ela tropeçar, cair em seus braços, e assim meu mundo desabou.

Muitas coisas aprendi com meu Romeo, meu Príncipe Encantado, mas aquele moço mais me ensinou a dor. Minha alma foi destroçada quando se apresentaram.

– Oi, – Ela disse vergonhosamente. – so… – A maldosa gaguejava, não sabia o que dizer. – Sou Alice. Acabo de me mudar para cá.

Eu continuava a ver aquela cena a distância. Eu conhecia os olhos do meu amigo, eles estavam apaixonados. E eu? Como ficaria? Será que estou me desesperando à toa? A garota só caiu, não deve ter sido nada demais. Será mesmo?

– Prazer, sou – Ele disse seu nome em seguida. – Você está perdida?

Meu coração acelerou.

– É… Bem… Um pouco.

– Venha para a minha casa e de lá eu te oriento.

– Desculpa, não posso, tenho que voltar para minha casa. – Ela disse. – Acho que encontrei o caminho.

Ele a largou. Enquanto a jovem se distanciava, olhou de relance para trás.

– Vou ver você de novo?

– Talvez.

Corri para dentro do meu quarto, tranquei a porta, fechei as janelas, e me pus a chorar durante toda a tarde. Me perguntava se eu estava sendo dramática, mas e se eu estivesse certa? Será possível? Este é meu final feliz?

Outro dia, meu amigo sentou-se comigo, deitei em seu colo, como sempre, enquanto ele alisava meus cabelos, e ia desembaraçando sua alma, até contar-me de seus sentimentos, contar-me da moça que conheceu. Ele a descreveu como bela, maravilhosa, dizia que seus cachos ruivos eram admiráveis, que seu fino rosto parecia ter sido esculpido pelo próprio Deus, seu corpo era majestoso e formoso, suas vestes, chamativas, falava de como ela vestia-se bem no dia em que a segurou, com um vestidinho branco com dourado, falava de sua voz encantadora, seu olhar hipnotizante, e eu ficava parada, ouvindo-o, admirando-o, temendo-o, questionando-me, entristecendo-me, ferindo-me. Eu a odiava, mais do que qualquer coisa, e sentia-me terrível por isso.

– Ela me lembra você.

Ele sempre me dizia.

Outro dia os vi na rua de mãos dadas. Ela apenas sorria, pensava que só assim se manteria com ele. Eu me flagelava cada vez mais, era incapacitada de me expressar, só uma outra face podia dizer que sentia o que eu sentia, só Alice era corajosa o suficiente para dizer que o amava. Eu não era ela, por isso ele não era meu.

– Ei, eu preciso te contar uma coisa… – Tentei.

– Pode me contar tudo. Somos amigos, não é?

Sorri falsamente àquela pergunta. Tentei dizer: “Ser sua amiga me machuca, eu não quero ser sua amiga.” E então beijar-lhe, e ficar ali por horas, sentindo-o. Mas o que saiu da minha boca estava bem distante do meu coração.

– Aquela garota parece te fazer muito feliz. Eu queria dizer parabéns, vocês são um casal lindo.

Como eu sou tão idiota? Não era para dizer isso? Ou era? Se eu me declarasse o dividiria! Isso seria ruim? E se eu o perder? Mas eu já não o perdi?

– Sim, ela me faz muito feliz!

Ai Deus! Olha o que ele me responde! Como sou má por desejar que eles se separem! Quem é pior? Ela, que apenas o faz feliz, ou eu, que não conto meus sentimentos e me corroo por um ciumento coração? Eu não consigo entender! Por que ele a ama? Eu não estive aqui por mais tempo? Não cuidei dele, o abracei quando precisei? O que ela fez por ele?

Então eles continuam juntos, e ele, que disse que seria meu amigo sempre, não pode nem estar aqui para me consolar, para me fazer deixar de chorar. Ele me deixou sozinha! Como o destino foi cruel comigo! Está na hora de pôr um fim ao meu conto, meu drama. Por isso estou deixando este relato. Quero que você guarde ele no seu coração.

Tudo o que eu não pude dizer, estou dizendo aqui, porque eu confio em você. Me prometa que vai guardar isso. Não faça como ele fez comigo! Está na hora de eu desaparecer, para sempre. Esqueça meu nome, esqueça minha face, minhas roupas, meu cheiro, meu afago. Mas eu não sou capaz de deixa-lo… Eu poderia deixar minha vida por ele, mas não de deixar ele por minha vida.

Então ajustei meus ruivos cabelos, preparei meus cachos admiráveis, maquiei minha fina face, vesti minhas melhores roupas, um vestidinho branco com dourado, e corri pelas ruas. Fiz a curva da estrada e tropecei, então felizmente ali estava ele, que me agarrou com força.

– Oi, – Falei vergonhosamente. – so… – Gaguejei, sem saber o que dizer. – Sou Alice. Acabo de me mudar para cá.

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